O mais importante acontecimento doutrinário ocorrido no interior do estado de São Paulo, certamente, foi o 1º Congresso Espírita da Alta Paulista, que Urbano de Assis Xavier presidiu e Herculano Pires planificou e secretariou. Realizado no período de 30 de março a 4 de abril de 1946 em Marília, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, esse congresso histórico foi promovido pelos centros espíritas marilienses e repercutiu pelo Brasil afora.
Conta-nos a revista A Centelha, dirigida pelo confrade João Silveira, em uma bem feita reportagem1 que a primeira prévia do Congresso realizou-se na cidade de Garça, a segunda na cidade de Pompéia, a terceira em Quintana, a quarta em Tupã, a quinta em Oswaldo Cruz, no coração da chamada Zona da Mata (fora de estrada de ferro) e a sexta e última prévia em Bauru. Todas muito concorridas. A caravana da Comissão Organizadora do Congresso, formada pelos confrades Eurípedes Soares da Rocha, Higino Muzzi Filho, Marcial Veloso, Antônio Rocco Júnior, Hélio Tavares, Manoel Pinto Ribeiro, Gabriel Ferreira, Paulo da Cunha Matos e Santos Xandó Araújo, partindo de Marília, visitou cada cidade e, assim, “durante quase um mês e meio a Alta Paulista foi intensamente sacudida pelas várias concentrações preparatórias do Congresso, durante as quais falavam numerosos oradores e faziam-se farta distribuição de manifestos e boletins.”
Como se nota, o plano da fase preparatória do Congresso foi elaborado com muita argúcia por Herculano Pires. Não devem ser aqui esquecidos Paulo Corrêa de Lara e Higino Muzzi Filho, cuja colaboração foi efetiva. Mas, era inegável, a espiritualidade superior se fazia ali presente a todos estimulando. “A concentração de Oswaldo Cruz, por exemplo, perante numerosa assistência e autoridades locais, quando se ia encerrar a reunião, a médium inconsciente Nair Arantes, de Tupã, foi subitamente tomada, e pronunciou uma admirável oração, que a todos empolgou. O dr. Crescêncio Miranda, ilustre médico e prefeito municipal de Oswaldo Cruz, teve os olhos cheios de lágrimas de emoção ao assistir aquela admirável preleção de uma mulher simples, da roça, semianalfabeta e incapaz de dizer uma parte sequer do que havia falado. Assim, também, no encerramento do Congresso, após a prece pronunciada pelo ilustre confrade dr. Tomaz Novelino, do Sanatório Allan Kardec, de Franca, o dr. Urbano de Assis Xavier, médium inconsciente, foi tomado pelo elevado espírito de Pai Jacó, e a seguir pelo do querido irmão Cairbar Schutel, que pronunciou magnífica oração de encerramento dos trabalhos. Estava presente o confrade José da Costa Filho, diretor da Revista Internacional do Espiritismo, de Matão, velho companheiro de Cairbar, e que emocionado reconheceu a perfeita identidade do espírito comunicante.”
Exaustivo, porém, foi o desenvolvimento do 1º Congresso Espírita da Alta Paulista. Diz a revista que “em todos os trabalhos do Congresso, desde a sua instalação até o encerramento, a comissão executiva não descansou um só momento. Herculano Pires e o dr. Urbano Xavier demonstraram-se incansáveis, dia e noite em contínua atividade, coordenando as matérias e providenciando milhares de coisas necessárias ao bom termo do Congresso.”
Anos depois, já residindo em São Paulo, registrava Herculano Pires em artigo de jornal a seguinte informação preciosa para a história do movimento espírita paulista:
“Uma das teses aprovadas no Congresso de Marília recomendava a formação de Conselhos Espíritas Municipais em todas as cidades para a unificação dos movimentos locais, participando desses conselhos representantes de todos os centros existentes em cada cidade. Em consequência, antes mesmo que a USE-SP (União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo) estivesse criada em São Paulo, já eram organizados os Conselhos Municipais de Marília, de Garça, de Tupã e de outras cidades”. (Essa tese foi aprovada por unanimidade e, registremos, era de autoria de Herculano Pires.)
Trabalho verdadeiramente pioneiro, o de unificar os centros espíritas da Alta Paulista. Porque a USE-SP foi fundada, oficialmente, no 1º Congresso Espírita do Estado de São Paulo – quase um ano depois do congresso de Marília. A verdade histórica é que o 1º Congresso Espírita da Alta Paulista foi que deu estrutura e orientação à USE-SP.
Outro detalhe: Carlos Imbassay, residente em Niterói, colaborou com o congresso da Alta Paulista, remetendo a tese “Os animais perante a doutrina espírita”, o que leva a crer que data dessa época sua correspondência com Herculano Pires e, consequentemente, a amizade.
E ainda outro detalhe que merece relevo, mas com alguns reparos: no dia 3 de abril, quando o Congresso da Alta Paulista estava no apogeu, chegou em Marília uma delegação de São Paulo integrada por Pedro de Camargo (o inesquecível orador Vinícius), Antônio Rodrigues Montemor e a valorosa confreira Anita Brisa.2 Afirma Luis Monteiro de Barros (ex-presidente da USE-SP e da Federação Espírita do Estado de São Paulo) numa entrevista3 que “Vinícius foi até lá interessado na questão política e pensava obter apoio do interior”. E mais: “A ideia inicial era facilitar ao espírita os meios de entrar na política”. Infelizmente, não informa Luís Monteiro de Barros que Vinícius fora, simplesmente, portador da mensagem que representava o pensamento de alguns elementos da Federação Espírita do Estado de São Paulo. A mensagem, pois, não era dele, Vinícius. E a bem da verdade, não era, também, de Edgard Armond, secretário-geral daquela Federação. Não há documento que prove o contrário.4 A referida mensagem tendo objetivos (quem agora depõe é Herculano Pires) “provocou a rejeição do plenário, com numerosas críticas e protestos". E mais: “Vinícius foi nomeado delegado do Congresso, pelo plenário, para tentar demover a FEESP dos objetivos políticos, o que, felizmente, conseguiu.”5
Foram apresentadas no 1º Congresso Espírita da Alta Paulista quatorze teses. Oito mereceram aprovação, entre as quais a de Herculano Pires que tinha por título “O espiritismo e a construção de um novo mundo – estabelecimento do Reino de Deus na Terra”. Enfrentava esta tese um tema por demais envolvente e atual. Foi lida em plenário e só depois de caloroso debate recebeu aprovação unânime.
O que pregava Herculano Pires?
A organização de um amplo movimento social desprovido de qualquer aspecto sectarista, que integrasse pessoas espíritas ou não, com o objetivo único de implantar no mundo os princípios do Reino de Deus contidos no Evangelho. Esse movimento não teria, no entanto, parentesco ou semelhança com os partidos políticos. E como os partidos vivem de demagogia, buscando o poder a qualquer preço, o movimento do Reino não se envolveria com eles e empenhar-se-ia pelo registro de candidatos livres.
Essa arrojada tese foi editada em 1946 por Antônio Batista Lino (fundador da Editora Lake, de São Paulo) com o título de O reino, no mesmo ano, portanto, em que se realizou o 1º Congresso Espírita da Alta Paulista.6 Mas Herculano não estava satisfeito com o enfoque. O Reino de Deus não poderia ser estabelecido na Terra somente com a criação de um vasto movimento cristão e, sim, como ensinava a doutrina espírita, através do processo natural da evolução. E, em 1967 (vinte e um ano depois) retomou-a e deu-lhe o verdadeiro enfoque doutrinário, ampliando-a.
“O Reino de Deus – escreveu Herculano Pires, inspirado – está acima da sociedade de classes, do mundo injusto de ricos e pobres, das competições políticas e econômicas. O Reino de Deus está dentro de nós, na aspiração divina da justiça e do amor, que é o próprio reflexo de Deus na consciência humana.”
E, depois de afirmar que é preciso transformar o mundo pela transformação do homem (e transformar o homem pela transformação do mundo), acrescenta, agora totalmente iluminado: “Não é através de um partido político, de um movimento ideológico-social, de uma sociedade secreta de natureza ocultista, de uma cadeira de vereador, deputado ou senador, de um cargo administrativo nas rodas governamentais ou coisa semelhante que podemos atingir o Reino. Muitos já se iludiram com isso e acabaram mais distanciados do Reino, atraídos que foram pelos reinozinhos terrenos. Afundaram-se na politicalha ou perderam-se na rotina eleitoral, na caça mundana e subserviente, hipócrita, aos votos do povo. O Reino não começa por sinais exteriores, mas por luzes internas. Só quando o coração muda de ritmo e a noite do espírito apegado ao mundanismo se acende de estrelas espirituais, é que estamos nos aproximando do Reino”.
1 Vide A Centelha, editada em São Paulo sob a direção de João Silveira, edição de maio de 1946.
2 O livro redigido por Eduardo Carvalho Monteiro, baseado também nas pesquisas de Natalino D’Olivo, e que tem por título USE – 50 anos de unificação, apresenta um equívoco ao afirmar que Vínicius, Antônio Rodrigues Montemor e Anita Brisa foram ao congresso em Marília “como representantes oficiais da USE”. Ora, a USE-SP foi fundada em 1947 e o Congresso aconteceu em 1946. Outro equívoco encontra-se na página 234, pois Eurípedes de Castro jamais foi presidente do Clube dos Jornalistas Espíritas.
3 Jornal Correio Fraterno do ABC, edição de março de 1982.
4 São de Edgard Armond estas palavras: “É necessário que se evite seja o espiritismo deturpado como doutrina, explorado como religião, utilizado como força político-partidária”, etc. (Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, pág. 31)
5 Jornal Mensagem, edição de fevereiro de 1975.
6 A Editora Lake, fundada por Batista Lino, iniciou suas atividades em 1947. O reino foi editado por ele, esporadicamente, em 1946. É, portanto, o primeiro texto espírita impresso pelo dinâmico e saudoso editor paulista.
Preparação ou liberdade?









