Mª Virgínia A última entrevista

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A última entrevista de Maria Virgínia Ferraz Pires

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A última entrevista de Maria Virgínia Ferraz Pires

Kreuder de Almeida Garrett David – Editor de millennium news
Produção e edição: Patrícia Rangel

 

José Herculano Pires e Maria Virgínia de Anhaia Ferraz

José Herculano Pires e Maria Virgínia Ferraz Pires

 

Quando conheci o professor José Herculano Pires, em 1972, ele tinha um programa radiofônico na antiga Rádio Difusora de Santo Amaro, onde mais tarde eu iria trabalhar, já com o nome de Rádio Mulher de São Paulo.

A nossa conversa girou entre espiritismo, família e sua mulher Maria Virgínia Ferraz Pires. Disse-me da expressiva retaguarda que sempre recebeu da esposa para enfrentar as intempéries da vida e as vicissitudes provocadas pelos inimigos da doutrina.

Quando a morte o alcançou em 1979, eu estava em Buenos Aires participando de um congresso sobre radiodifusão, e fui informado pelo telefone por um amigo comum. Só naquele momento consegui perceber em sua inteireza a importância do homem Herculano Pires, sem favor algum, para a sociedade brasileira e, sobretudo, para o espiritismo.

Os anos se passaram e ficou-me um desejo enorme de um dia poder entrevistar Virgínia Pires. Nas voltas que esse mundo dá, eis que a oportunidade se apresenta, e numa espécie de homenagem pelos 20 anos da desencarnação do professor.

(Esta entrevista foi concedida em setembro de 1999, oito meses antes dela desencarnar.)

Participaram da entrevista os jornalistas J. G. Pascale (então editor do Jornal Espírita), Altamirando Carneiro (então editor do jornal O Semeador), Heloisa Pires (filha de Herculano) e a publicitária Sandra Moreira.

 

millennium news – Em que ano a senhora se casou com o professor José Herculano Pires?

Virgínia – Foi em 1938. Eu o conheci em uma palestra que ele fez num centro espírita da minha cidade, Ipaussu (região da Sorocabana, interior de São Paulo). Foi a sua primeira palestra como espírita. Antes, ele tinha se interessado por teosofia por causa de um primo que ele tinha na cidade de Santos.

 

millennium news – E a senhora?

Virgínia – Eu já era espírita, tinha dezessete anos, e era evangelizadora. Aí o Herculano fez a palestra. No final, um vizinho nosso, seu Pedro Anar, chegou para ele e disse: "Você fala bem, conhece espiritismo, mas está misturando teosofia com a doutrina, precisa estudar mais espiritismo". O Herculano achou muita graça. Dois anos depois, nós voltamos a nos encontrar em Avaré, sua cidade, pertinho da minha. Em seis meses estávamos casados. Eu agradeço a Deus a oportunidade de tê-lo encontrado nesta encarnação, e creio que também foi importante para ele, porque eu lhe ajudei em tudo que pude para que ele levasse a cabo a sua responsabilidade de pregador espírita. Então, quando eu olho o passado e vejo que durante quarenta e tantos anos em que vivemos casados, e apesar dos momentos difíceis pelos quais passamos, eu posso dizer para vocês que ele foi um homem coerente. Ou seja: do jeito que ele pregou, ele viveu. Com a mesma calma que ele aconselhava as pessoas, ele não a perdia nas horas difíceis. Era uma fé, que eu, por exemplo, não tinha, nem do tamanho de uma mostarda, talvez.

 

millennium news – A senhora era muito namoradeira?

Virgínia – Não! (risos) Quer dizer, mais ou menos... Eu estudava contabilidade e era meu irmão que me levava até a escola. Eu era muito falante, como sou até hoje, e os rapazes viviam me paquerando, porém, eu não queria nada com eles. O Herculano às vezes me acompanhava até a escola, e os meninos diziam: "Virgínia, você não quer nada com a gente, mas dá bola para o Herculano de Avaré?" Eu então dizia: "O Herculano é diferente, só fala de bons livros, de espiritismo, só coisas boas. Não é como vocês, cabeças-de-vento." Então, eu acho que o Herculano, além de fazer muita falta hoje em dia, não só para mim, como para meus filhos, acho que ele faz mais falta para o espiritismo.

 

millennium news – Por quê?

Virgínia – Porque eu vejo tanta besteria que falam por aí, e não tem ninguém para defender a doutrina dessas bobagens.

 

millennium news – A senhora colocou bem. No passado eram tempos heroicos, e existiam homens como Carlos Imbassahy, Deolindo Amorim e tantos outros. Esse pessoal passou, o movimento espírita cresceu, as próprias instituições também e hoje muitas estão nas mãos de dirigentes incompetentes, que além de não conhecer doutrina, porque não estudam, são na maioria das vezes despóticos, que se comprazem em bancar eminências pardas, ocupando cargos secundários, mas dominando nos bastidores, principalmente em grandes centros espíritas e nas federativas, especialmente em São Paulo.

Heloisa – Mas no tempo de papai também era assim.

Virgínia – Agora vocês imaginam, eu que sou uma pessoa menos evoluída, como sofri. Nós frequentávamos um centro espírita de um amigo, e um dia ele perguntou: "Virgínia, por que o Herculano não gosta disso, não gosta daquilo, censura aquilo, está contra aquilo outro? Na verdade ele está obsedado." Aí eu fiquei louca! Quer dizer, então, que vocês fazem as besteiras e nós é que pagamos o pato!?

 

millennium news – Mas essa é a saída de todos os incompetentes que não estudam, ou dos maus-intencionados que usam a doutrina em benefício próprio, chamar os que apontam os erros de serem perturbados.

Virgínia – Com o Herculano foi a mesma coisa. Quantas vezes ele criticou a FEB? Como represália seus livros até hoje não entram lá. Foi assim também com o episódio da adulteração do O evangelho segundo o espiritismo, feito pela FEESP. Deus que me perdoe, já vi homem moleirão, mas igual ao Chico Xavier, estou para ver. Gosto muito dele, é nosso amigo, é muito bom, mas é muito mole. O pau comendo (risos) e ele não tomava nenhuma atitude. Ele ligava para casa apavorado e o Herculano dizia: "Mas Chico, você tem que assumir a defesa do Evangelho." Um dia nós fomos em uma festa num centro espírita, chegando lá estavam todos os que adulteraram O evangelho segundo o espiritismo. Eu sentei no meio deles e disse: "Que bom encontrar por aqui os adulteradores das obras básicas." (risos)

 

millennium news – Depois de casados vocês foram viver aonde?

Virgínia – Fomos morar numa pequena cidade próxima de Avaré, chamada Cerqueira César, onde Herculano tinha familiares. Depois fomos para Marília, por fim, viemos para São Paulo, onde estou há cinquenta e tantos anos, quase cinquenta e cinco.

 

millennium news – Aí ele foi para os Diários Associados?

Virgínia – Não. Foi aí que a nossa situação se tornou difícil, quando ele ficou dez meses desempregado, só fazendo bicos, traduções etc. Depois ele arranjou emprego nos Diários Associados [empresa jornalística proprietária do Diário de São Paulo, Diário da Noite, Rádio Tupi Difusora, TV Tupi e revista O Cruzeiro, todos extintos], onde trabalhou por trinta anos, e lá se aposentou.

 

millennium news – Vocês tiveram um grupo espírita?

Virgínia – Ah, sim! Temos até hoje. Começou desde que eu me casei. É um grupo familiar, não é propriamente um centro espírita, não tem placa, nada. Quando não tinhámos as crianças, fazíamos as reuniões na sala. Depois com as crianças passamos a fazer na cozinha, para não acordá-las. O tempo passou, as crianças cresceram e os amigos acharam que deveríamos fazer as reuniões num local maior e não na garagem da casa. Mas vejam vocês, como Deus escreve certo por linhas tortas. É que o Herculano logo iria desencarnar. A garagem tinha uma porta por onde entrava qualquer um, que não precisava dizer eu sou fulano, sou cicrano. Nossa casa era uma espécie de porto para as pessoas. Havia um engenheiro de Santos que perdera o filho, e tinha sede enorme de conhecer o espiritismo. Ele chegava às seis horas da tarde com a esposa, e só saía depois do café manhã. Todas as pessoas que nos procuravam com seus problemas eram muito bem recebidas. Eu e meu marido achávamos que era um dever fazer isso. Quando o Herculano desencarnou, nós estávamos fazendo uma reunião na garagem, e ele estava no quarto. Fui informada que ele estava passando mal. Liguei para minha filha mais nova para vir até em casa e trazer um amigo nosso que era médico e seu vizinho. O Herculano foi internado no Hospital São Paulo e lá desencarnou. Porém, o pessoal do grupo não sabia que ele havia desencarnado, quando cheguei para apanhar algumas roupas dele, minha irmã me disse: "Virgínia, o Herculano acabou de dar uma mensagem." Eu fiquei louca da vida e respondi: "Isso é um absurdo, ele nem bem morreu e já está dando mensagem. Jogue isso fora!" (risos). Depois de algumas semanas meu filho Herculaninho mostrou a mensagem que ele tinha recebido do pai, naquela noite.

 

millennium news – O que dizia a mensagem?

Virginía – "Sustentem em apoio vibratório a casa; amparem os livros da codificação, e eu em espírito e memória, com a ajuda dos amigos espirituais, estarei sempre com vocês no apostolado de pregar e servir a doutrina dos espíritos, como o mestre nos ensinou". Depois falou um espírito que não deu o nome, mais adiante uma parte da mensagem que era para mim, e no final ele dizia: "Menos choro e mais café!" (risos)

 

millennium news – Até depois da morte ele continuou com a sua grafomania, como ele gostava de se autointitular?

Heloisa – É verdade, bem lembrado.

 

Virgínia – Aí o pessoal achou que deveria comprar um terreno ou uma casa para fazer a sede do grupo. Então começamos a angariar fundos. Foi aí que o Herculano falou: "Se vocês estão arrecadando dinheiro, devem registrar o grupo." Um belo dia, o corretor da imobiliária nos procurou e disse: "Tem uma casa na rua doutor Pinto Ferraz, cuja entrada é o dinheiro que vocês possuem." Compramos, continuamos a pagar as prestações, e o grupo está lá até hoje. O Herculano desencarnou e não deu tempo de ir em nenhuma reunião na nova casa.

 

millennium news – O Herculano nunca se comunicou lá?

Virgínia – Poucas vezes. Mas eu lembro uma vez, nós tínhamos um amigo advogado que não aceitava a mediunidade, porque era católico. Ele vinha em casa e o Herculano conversava com ele horas a fio, explicando espiritismo. Uma vez ele ligou para casa, o Herculano já tinha morrido, e queria falar comigo porque não estava se sentindo bem. Eu pensei: "Meu Deus do céu, e agora? Eu não sei fazer o que o Herculano fazia, e não sei como ajudá-lo." Eu pedi, então, que meu marido viesse em meu socorro. Nisso, chegou meu filho, que é médium, eu pedi que ele desse um passe no rapaz. E então o Herculano se manifestou. Falou com nosso amigo e disse-me: "Virgínia você precisa fazer uma operação." Eu respondi: "Está certo, é de catarata, mas deixa isso para depois, agora devemos ajudar nosso amigo." No dia seguinte, tive um sonho com o Herculano que dizia que a operação não era de catarata, mas de câncer. Fui ao médico e ele me disse: "Fiz todos os exames e constatou-se um câncer no intestino, numa situação que ainda não se descobre, porque não há sintomas." Operei e nem precisei fazer quimioterapia.

 

millennium news – Voltando a pergunta anterior, sobre as comunicações do Herculano, que deve haver uma vigilância maior a respeito, porque devem ter aparecido muitos oportunistas...

Virgínia – Sem dúvida! Logo depois que ele morreu, apareceram centenas de mensagens em vários centros espíritas, que eu pensei: "Será que este homem não têm serviço do lado de lá. Só vive mandando mensagem?" (risos) Mensagens bobas, que não ensinavam nada! Eu perdi a paciência e dei um basta: parem com isso! Eu não endosso nada disso, até mesmo com os amigos da gente.

Heloisa – Principalmente com os amigos. (risos)

Virgínia – Teve gente que quis até publicar um livro com essas mensagens, que eu não aceitei. Porque o homem não ficou burro. Não há casos no espiritismo que alguém tenha ficado burro depois que passou para o lado de lá, não é mesmo? (risos)

 

Editorial

Uma tomada de consciência

J. Herculano Pires

O apego ao contingente, ao imediato, apaga na consciência dos nossos dias o senso da responsabilidade espiritual. Nem mesmo a ronda constante da morte consegue arrancar o homem atual da embriaguez do presente.

Continue lendo o texto aqui.

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Um Deus vigia o planalto,
escrita por J. Herculano Pires.

Vídeo em destaque [YOUTUBE]


Trecho do programa "Ciência e
Espiritualidade", apresentado pelo dr. Décio
Iandoli Jr., onde Heloisa Pires fala
sobre a vida e a obra de J. Herculano Pires.


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